sábado, 14 de outubro de 2017

A ARTE SEM CRIATIVIDADE, TALENTO E TRABALHO

 A “arte” sem criatividade, talento e trabalho.                       
      (uma pequena contribuição de um leigo sobre a arte atual)

A polêmica sobre as exposições recentes em Porto Alegre e São Paulo, ativaram as mentes da sociedade, com pronunciamentos de diversas pessoas, inclusive aquelas não tão interessadas, em nome da moralidade, dos bons costumes, da lei, do respeito ao menor, considerado ainda não psicologicamente maduro e também da estética artística.

Não seria preciso frisar que os comentários aqui esboçados são individuais, por parte de quem não é um especialista em arte, mas teve a oportunidade de visitar ao longo de sua vida, diversos museus e Igrejas da Europa, Estados Unidos e Brasil, sempre com um pouco de curiosidade sobre as artes pictóricas, as esculturas e até um pouco da arquitetura e os comentários a respeito daquelas que mais lhe interessaram. Digo isto apenas para realçar que minhas opiniões possuem um viés e como disse não sou especialista.

Confesso a minha preferência pelo classicismo da Renascença,  barroco, impressionismo, expressionismo, em determinado momento o cubismo e alguma coisa da arte abstrata (Kandinsky por exemplo). Sem querer ser desrespeitoso com os demais: Botticelli, Da Vinci, Michelangelo, Caravaggio, Velázquez, os impressionistas de um modo geral (Monet, Renoir, Degas), Cezanne, Munch (O grito), Matisse, Picasso, Miró, Kandinsky (pai do abstracionismo) e até gosto um pouco de Pallock. Talvez seja um saudosista e por isso não tenho grande interesse pela arte atual.

Importante que esclareça que o artigo não pretende ser um estudo sobre a arte, a sua história e evolução, muito menos uma referência sobre o assunto. Tudo, ou quase tudo, do que é dito aqui sobre alguns estilos artísticos anteriores e seus renomados artistas pode ser encontrado em alguns livros, óbvio. Não tenho bagagem para ser expoente no assunto, não sou um estudioso da arte, apenas um curioso esporádico. E, em muitos casos, tenho até dificuldades para digerir o que os estudiosos dizem. 

Entretanto, não poderia deixar de expressar o meu descontentamento com os rumo da arte moderna e para isto tive que recorrer, em meu auxílio, de forma bastante sucinta, o que foi e continua sendo dito sobre os diversos estilos artísticos. 

E só poderia dar a minha opinião sobre a arte "interativa" atual fazendo uma referência e um breve comparativo com outros estilos artísticos, o que eles têm em comum e que os distingue da arte atual.  

Por estes motivos o problema passou a ser a dificuldade em conciliar o muito que poderá ser dito sobre arte, com o necessário e a extensão do artigo, sem que isto traga um desinteresse pelo leitor. Caso isto ocorra poderá ele se concentrar nos tópicos "Elementos necessários a uma boa obra de arte", "Conclusão" e, logicamente, na minha "Proposta", sobre como ganhar um trocado com esta arte. Quem sabe possam se interessar e considerar uma ideia "genial". 

Relendo, percebi que muitas assuntos poderiam ser melhor retratados com exemplos e enriquecidos, sem comprometer a sua característica de artigo. É o que pretendo fazer em breve, citando a pintura "O grito" do artista norueguês Edward Munch.

Conhecer arte

Admirar e entender de arte não parece uma tarefa tão simples quanto vulgarmente se imagina. Não é apenas dizer gostei ou não gostei. Além da sensibilidade, em captar o impacto e a expressão da obra, deve-se estar atento para o ambiente social e cultural à época, à evolução e a qualidade dos materiais, a vida do artista, suas correspondências e opiniões. Comparar suas obras com outras de artistas contemporâneos. Nas artes sacras, ou temas religiosos, conhecer as passagens e os seus significados, conhecer os mitos quando se tratam de obras carregadas de representações mitológicas.

Além disto, é necessário se descondicionar e desnudar das convenções, quando se trata de uma obra criativa, inédita, revolucionária, em termos artísticos e não socialmente. Voltarei a este assunto oportunamente.  Por isso, verdadeiros artistas criativos só foram posteriormente reconhecidos. Estavam além de seu tempo.

Dou-lhes um exemplo: embora fosse aficionado pela musica clássica de Mozart e Vivaldi, com toda aquela harmonia, só consegui realmente admirar Beethoven quando um profundo conhecer me explicou o significado de sua música e o momento em que ele rompeu com o classicismo.

Da mesma forma, não se pode admirar toda a beleza de “ A volta do filho pródigo”, de Rembrant, sem saber o seu significado bíblico, que inclusive pode ter duas interpretações. Muitos dos artistas de hoje não têm cultura artista, não experimentam, não trabalham “verdadeiramente”. O mesmo se diga da obra "A incredulidade de São Tomé", de Caravaggio, com comentários no tópico sobre o Barroco. 

Entendo a arte pictórica e escultura como a combinação de três elementos ou fatores: criatividade, talento (habilidade no trato do objeto da arte) e trabalho.

Os elementos necessários a uma boa obra de arte

Acho muito difícil conceituar com limites definidos e fixos estes elementos porque de uma certa forma eles interagem entre si e contribuem para com o outro.

Criatividade: “inventividade, inteligência e talento, natos ou adquiridos, para criar (nada disse), inventar, inovar quer no campo estético ....” (Google).

Acredito que na arte seria o novo, a originalidade, que não deixa de ser uma forma de talento, a maneira individual que o artista aborda o tema da obra, incluindo nela o uso dos materiais utilizados na sua elaboração, para ajuda-lo na sua forma de expressão.

Talento: seria o dom, a habilidade em tratar com o objeto, de transmitir expressividade, uma mensagem própria, através do cromatismo, da plasticidade, da disposição dos elementos que compões o quadro, da luminosidade, da habilidade no desenho, para as artes que estavam mais associadas a uma reprodução dos elementos naturais e humanos. 

Podemos observar que também estes atributos fazem parte da criatividade. Mas, tanto a criatividade quanto o talento podem ser aprimorados através da aprendizagem, da experimentação, do contato com outras obras diversas, como Picasso com a arte africana e asiática.

Por exemplo, com o seu “sfumato” Da Vinci demonstrou tanto criatividade quanto talento. Como distinguir? E existem obras em que se percebe mais o talento, mas nem por isso deixa de haver criatividade.

Da combinação destes dois elementos e da disposição dos demais elementos em torno do elemento central o artista dá expressividade à sua obra (pictórica).

Trabalho: o esforço físico e mental que o artista dispende durante a execução da sua obra, bem como os projetos, ou a pré-elaboração.

Se visitarmos a obra “Guernica”, do pintor Picasso, podemos observar os seus preparativos, que deveras consumiram mais trabalho do que a elaboração da própria obra. O esforço do antes e do durante encontra-se materializado na obra do artista, muito embora não possamos distinguir. Também é este o momento da experimentação, das tentativas.

Ora, se é através do trabalho que o artista alarga a sua criatividade, e através da experimentação que aprimora o seu talento. Nesse sentido, o trabalho não deixa de ser a materialização da criatividade e do talento.

Portanto, o que quero esclarecer é que para mim estes três elementos não se destacam de forma tão individual, embora possamos ter uma ligeira impressão ou ideia de cada um deles. Mas eles formam um todo que dão expressividade a obra de arte.

Mesmo estando mais focado na arte pictórica, acredito que não existe uma obra dita de arte em que não esteja presente estes elementos, logicamente de forma diferenciada.

Por exemplo, na arquitetura o artista (arquiteto) planeja a obra, que é o seu trabalho e onde estão a sua criatividade e talento, mas não a executa e nem mesmo controla.

Na ópera considerada por muitos a mais perfeita obra de arte, onde estão em presentes e em conjunção diversas artes, canto, interpretação, enredo, música, cenário, o artista dono do show, interpreta e embora tenha o dom da voz, dispende esforço físico e mental, além de se envolver nos ensaios (experimentação).

No teatro o artista (a) interpreta (talento), cria na sua interpretação, dá o seu toque, faz o seu trabalho durante o espetáculo e participa dos ensaios. O mesmo se pode dizer da dança.

Exemplos e comentários sobre algumas obras de arte e artistas

Para uma melhor facilidade de expor o que desejo transmitir passo a comentar algumas obras de arte juntamente com os seus protagonistas (artistas), sem obedecer uma ordem cronológica.

Capela Sistina (Vaticano): quando se adentra na Capela Sistina somos absorvidos por uma das obras mais impressionantes de que se tem história. Ficamos imaginando o trabalho do artista, seu esforço físico e mental para concluí-la.

Se for religioso e cristão será tomado por uma espiritualidade invulgar. Somente a esquemática da obra demorou quatro anos. Sabe-se que o artista realizou o seu trabalho de forma bastante desconfortável, havendo até uma hipótese de tê-lo feito deitado, posteriormente negada por Vasari. 

Compõem a obra diversos temas com cenas do Gênesis, desde a Criação, o Pecado Original e ao Juízo final. Seu símbolo mais divulgado, com milhões de reproduções fotográficas, é o detalhe do toque entre os dedos de Deus e Adão.

Para entendê-la precisaríamos de um longo esclarecimento sobre o esboço da obra, os significados bíblicos. Mas, não se espantem, porque é possível admirá-la sem que seja um profundo estudioso. Este é o milagre.

Não conseguimos distinguir a criatividade, o talento e o trabalho do artista, todos convergindo para uma expressividade da obra, como um todo, sendo impossível separar os 3 elementos, muito embora possamos tentar ter uma superficial e imperfeita ideia de cada um deles no contexto.

Mona Lisa: possivelmente a obra mais famosa do mundo, do pintor e “cientista” Da Vinci. Através do “sfumato” podemos ter noção de toda a criatividade e talento do artista, com o jogo de cores, com as imagens se dispersando como que cobertas por uma névoa. O seu trabalho incluía diversos estudos sobre a técnica da perspectiva, da qual foi um expoente.

E no final a pergunta: Está Mona Lisa sorrindo? A resposta fica por conta do observador. Há interação entre a obra e o observador?

Picasso: considerado um dos artistas mais talentosos e produtivos, passeou ao longo da vida por diversos estilos, sendo precursor, juntamente com Braque, do “cubismo”. Com “Les Demoiselles d’Avigonon” inicia um novo estilo artístico, com repercussões durante todo o século XX.

Considerado um exímio desenhista optou por uma arte que quebrou com os padrões do classicismo, inaugurando a arte moderna. Foi um trabalhador incansável até o final de seus 92 anos, realizando diversos experimentos com cores, composições  e materiais trabalho. Foi também brilhante escultor.

Quer gostemos ou não da sua arte “modernista” não podemos pensar os rumos da arte do século XX sem Picasso.

Matisse: quase o mesmo se diga deste artista que no final da vida, com problemas de saúde não podia trabalhar em pé, mas isto não o impediu de tentar novos experimentos e novas formas de composição.

Na sua obra mais famosa “A dança” empregou toda a sua criatividade e talento para exprimir a sutileza e leveza dessa arte, com apenas quatro cores, sem preocupações dos mínimos detalhes físicos.

E aqui é onde mora a sua genialidade: parece pintura de criança (como muitos pensam), mas não conseguem fazer nem de longe algo parecido, com tanta expressividade e simplicidade.

Van Gogh: que não liberto de sua doença mental crônica libertou as cores, num ato de extrema ousadia e, infelizmente, não foi reconhecido durante a sua existência.

Trabalhador compulsivo despejou o seu talento e criatividade em torno de 900 obras de arte, entre elas “Noite estrelada” de extrema originalidade e beleza, quando somos tomados por um turbilhão de sensações, que não sabemos explicar e discernir.  Também “Ciprestes”, “Girassóis” e diversos autos retratos.

Introduziu de forma forte o amarelo em suas composições talvez por problemas de alimentação e extravagâncias no manuseio das cores. Identificava o amarelo na cabeça das figuras como uma “aura” dos santos.

Se quisermos ter uma ideia de sua criatividade e talento basta ir ao Museu do mesmo nome do artista, em Amsterdã, e presenciar e comparar as suas obras com as de outros artistas “clássicos”, sobre os mesmos temas e figuras.

Rodin (impressionista) e Vigeland: mudando um pouco para a escultura, quem vai a Paris não pode deixar de passear pelos jardins do Museu Rodin e apreciar a beleza, criatividade, talento e trabalho, da “Porta do Inferno”, “Le penser”, “Les bourgeois de Calais”, “O beijo” (de extrema sensualidade).

A “Porta do Inferno” esculpida em bronze e reboco, foi iniciada em 1880 e finda em 1917. Com figuras as mais expressivas, algumas se sobrepondo nuas umas sobre as outras, outras se contorcendo como que num “transe” as vezes diabólico, numa dança de frenética horrores (minha interpretação), com expressões de sofrimento, com a nuance do pensador encima, mão sob o queixo, como que pensando, pensando (afinal trata-se do “Le penser”), imaginando, questionando. Somos tomados por um misto de espanto e admiração. E quem é religioso? Nem sei.

Quem estiver interessado em compartilhar e desfrutar gratuitamente de uma "grandiosa" e verdadeira obra de arte vá ao Parque de Escultura de Guatav Vigeland (1869-1943), em Oslo. 

São 212 esculturas de granito e bronze, diversas em tamanho natural, além do próprio Parque, desenhado pelo artista, com um obelisco central, onde o artista retrata passagens de sua vida. Não esculpiu todas as obras e teve a colaboração de outros artesãos, sob sua orientação. Vigeland trabalhou com Rodin (não sabia) e doou as suas obras ao governo. .

Na ponte estão distribuídas diversas esculturas, que realçam, entre outras coisas, as relações entre pais e filhos, no cotidiano da vida. Quem é pai ou mãe pode relembrar, com a singeleza e sutlileza das obras, os momentos de suas relações afetivas com os filhos, as suas brincadeiras (pai jogando o filho para o alto, como fazíamos) e os de tensão e educação (pai repreendendo filho). Recomendado também para os (as) saudosistas que gostem de relembrar os grandes amores. 

Rembrant: na obra “A volta do filho pródigo”, texto bíblico, Museu Hermitage, São Petersburgo, Rembrant mostra toda a sua genialidade, criatividade e talento, com o cromatismo, a composição integrada às figuras principais, a imagem perceptível do filho injuriado e enciumado, com a luminosidade focada para o pai abraçando e perdoando o filho envergonhado e ajoelhado, como que pedindo perdão, pelas suas aventuras e desperdício.


A arte, a cultura e a lei

Anteriormente, havia comentado que o contexto cultural tem uma grande importância sobre a criação de uma obra de arte, visão esta que vai de confronto com a ideia de que a arte é sempre revolucionária, de contestação dos padrões culturais. A história não confirma isto. Vejamos.

Arte rupestre: de extremo simbolismo sobre a atividade do ser humano sobre o seu meio ambiente, esta arte espera que o que foi pintado se realizará no mundo real (me parece ser a opinião de Hauser, já não possuo o seu livro).

Arte tribal (algumas): comunitária e socializante, invoca-se através de máscaras e ritos de dança a presença dos bons espíritos, para que contribuam nas boas colheitas. Por outro lado, através de máscaras horrendas pretende-se espantar e afastar os maus espíritos que poderão interferir de forma perniciosa na vida da tribo e na natureza, com prejuízos para a comunidade. Isso comprova que a arte não tem que ser necessariamente bela. Torna-se bela com os valores burgueses. E agora, mesmo com a alta burguesia tornou-se extravagante e horrível, em todos os aspectos.

Arte clássica: arte do Renascimento, que para o leitor um pouco familiarizado não precisa de comentários extensivos, sendo importante lembrar que ocorreu num momento de grandes transformações e que os artistas deram grandes contribuições nesse desenrolar, com o apoio dos grandes “mecenas”, sendo um deles e o mais lembrado a família Médici, de Florença e pela Igreja Católica. Afinal quem não conhece as contribuições de Da Vinci também para a ciência? 

O Renascimento é antes de tudo um movimento cultural, do final da idade média, que busca um resgate dos valores e referências culturais (também estéticas) da antiguidade, mormente da Grécia, muito embora apresente suas peculiaridades, com Sandro Botticelli, Da Vinci, Donatello (escultura) e outros. 

Também  pode-se dizer, que após Nicolau Copérnico, com a teoria do Heliocentrismo, abrem-se as portas para o desabrochar da ciência moderna no século seguinte a sua morte. E os artistas desempenharam importante papel nessas transformações.

Na pintura nasce a perspectiva, cujo expoente máximo é Da Vinci, dentro de um equilíbrio pictórico, com uma figura central em realce, concentrando as atenções. Também Da Vinci e Botticelli dão expressão às individualidades dos personagens representados, o que não ocorria na Alta Idade Média. Muito das suas obras encontram -se  no Museu Uffizi, em Florença.  

Antes do passo seguinte, cabe uma pergunta. Porque será que Florença é tomada por pessoas de todos os cantos do mundo (inclusive uma multidão de asiáticos) que vão para apreciar estas obras clássicas? Será por ignorância em distinguir e dar o devido valor a uma obra de arte?

Barroco na pintura: uma arte que segundo Hauser nasce dos conflitos religiosos entre católicos e protestantes. Ainda de acordo com o autor, de grande importância seria “O Concílio de Trento”, uma reação da Igreja Católica contra a Reforma Protestante, aproximando-se dos cidadãos comuns, dos humanos.  

Nesta arte os santos já não são diferentes dos seres humanos comuns, são de carne e osso, até mesmo Cristo, aparecem velhos, com cicatrizes e com feridas. 

Um exemplo é a obra “Incredulidade de São Tomé”, de Caravaggio (uma das minhas prediletas) baseada na passagem bíblica em que São Tomé descrente da Ressurreição de Cristo afirma que precisa "ver", tocá-lo em Suas chagas, "para crer". A quem Cristo se dirige e afirma: "Tomé, porque me viste, acreditaste? Bem-aventurados os que não viram e creem". Daí a expressão tão comum: igual a São Tomé, precisa ver para acreditar. 

O impressionismo: muito influenciado pelo maquinismo (movimento), pela luminosidade e pelas revelações da fotografia. Rompe com os temas mitológicos, bíblicos e procura captar momentos da vida cotidiana. 

Muda-se a arte, procura-se captar o instante, o momento, porque o objeto não nos parece o mesmo nos momentos diferentes. O que se pensava sobre a retratação a fotografia revela uma realidade diferente. Arte do cavalete vai para as ruas e locais descampados para captar o momento específico do objeto a ser retratado, com  luminosidade.

Mudam-se as pinceladas, já não há tempo para uma demorada elaboração. Abandona-se definitivamente a perspectiva nos moldes do desenhado clássico, sendo ela retratada pelo jogo de cores. 

Há impressão sobre a obra de arte quando a observamos de longe, parecendo haver detalhes na composição, mas quando nos aproximamos a obra se reduz a pinceladas rápidas, muitas vezes espaçadas e livres (soltas).

Segundo Ferreira Gular é o início da abstração, com ele começa a morrer a pintura figurativa, já não se retrata o objeto em si, mas apenas impressões sobre ele. "A fidelidade do mundo natural transferira-se da objetivação para a impressão" (Etapas da arte contemporânea, Ed. Revan, 1998, p.289/290).

Para mim, encontramos um bom exemplo destas características nas obras de Claude Monet, "Ponte da Europa" e em "Gare Saint-Lazare". Maquinismo, movimento, luminosidade, fumaça que se dispersa instantaneamente. 

Dadá: arte que reflete a descrença na humanidade (niilismo), no futuro e na ciência, aplicada para fabricação de artefatos destrutivos, vivenciado na primeira grande guerra.

Para mim foi difícil percebê-la na pintura, mas com um exemplo podemos melhor entende-la.

Numa representação artística aparece uma moça nova, com cara de ingênua, vestida de colegial e talvez religiosa. Entra no palco e começa a gritar uma porção de palavrões, com cenas também ofensivas e  pornográficas.

A ingenuidade era uma farsa, assim como foi a credibilidade na ciência a serviço do homem. Caiu em desuso, mas as sua ideologia ainda está na base de toda arte que queira chocar e agredir. Um de seus expoentes foi Marcel Duchamp, aquele do mictório, da roda de bicicleta sobre um cavalete e da Mona Lisa com bigode.

"O Dadaismo era, acima de tudo, a expressão de uma atitude mental através da qual a juventude internacional chegava às convulsões sociais e políticas da época. Eles formulavam a sua oposição através de ações, reações e trabalhos artísticos visuais anárquicos, irracionais, contraditórios e literalmente sem sentido" (Arte Moderna - do impressionismo à atualidade, Ed. Taschen, 2016, p. 266). Os negritos são meus. 

Considerado um dos precursores da arte “Conceitual”, cerebral,  e do “ready made”. Na minha concepção não foi um grande artista, nem produziu uma arte digna desse nome.

Muito inteligente era um espirituoso e muito bem articulado, circulando nos principais meios artísticos da época.

Surrealismo: arte influenciada pelo “inconsciente” freudiano e pelos sonhos. Não procura fazer da arte uma atividade racional, se expressando de modo compulsivo, realçando o inconsciente.

Pop: ou "pop art", acho que o nome já é bastante significativo. Seu berço é a Inglaterra mas, logicamente, encontra o ambiente ideal para a sua propagação nos EUA, do pós-guerra, com o crescimento contínuo de sua economia, em virtude do consumo reprimido, no período de guerra, com a divulgação do "american way of life". 

É uma arte que anda de braços dados com a publicidade. Se desejam se aprofundar basta consultarem a vida do artista pop Andy Wahrol. Evidentemente, sem críticas ao seu estilo todo pessoal de levar a vida. Entretanto, na minha opinião, não podemos deixar de reconhecer o elo entre o seu modo extravagante e a projeção midiática de sua arte. Um assunto para uma outra oportunidade. 

Quanto ao seu expoente máximo, idolatrado, verdadeiro artista "pop", competindo em popularidade com as estrelas de Hollywood, Andy Warhol, por hora gostaria de dizer apenas, em poucas palavras, o que já disse em outro artigo neste blog. 

Talvez o artista mais “midiático” de todos os tempos, seguindo os passos iniciados de Duchamp. De tanto repetir figuras em uma "suposta" crítica à sociedade de consumo (para alguns), ou mesmo realçar a uniformidade consumista, tornou-se “repetitivo”. 

Segundo comentários nesse outro artigo, a ideia original de repetição das figuras não foi sua, embora a abraçasse melhor que ninguém e fizesse bem uso, com o seu poder “midiático”.

A Arte interativa é arte?
 
Quando me refiro a arte interativa estou interessado nas questões levantadas em geral pelo público brasileiro em reação as exposições em Porto Alegre e São Paulo.

A indignação tomou conta contra as exposições com cenas que para alguns seria contra a moralidade e aos bons costumes.

Inicialmente, tirando estes aspectos morais, procuro analisar a presença de um “artista” nu que interage com uma criança sob os incentivos da mãe de tocá-lo.

Sinceramente, não vejo nesta “arte” quaisquer traços de  originalidade, talento artístico e muito menos trabalho.  O “nu” é um estado do ser humano e para expô-lo não precisa-se de qualquer um desses elementos, que para mim, são indispensáveis para classificar uma boa ou grande obra de arte, digna de ser apreciada.

Ficamos neste estado quase todos os dias, quando vamos tomar banho, fazer as necessidades fisiológicas ou fazer sexo. Nada há de extraordinário neste ato, que possa ter a qualificação de uma obra de arte. A única coisa a fazer é ficar nu e se expor ao público que visita o museu. Também não precisa de inteligência, podendo ser qualquer um, inclusive uma pessoa desprovida de inteligência, nem culta. Existem muitas pessoas talentosas que não tiveram oportunidade de ter uma educação mais aprimorada e que poderiam até alcançar o estrelato se pudessem usufruir desses meios e ter boas relações no meio artístico.  

Me parece que o mesmo, em certo sentido pode se dizer as figuras sexuais expostas no museu de Porto Alegre, sob o patrocínio do Banco Santander.

Cenas de sexo sempre existiram na Roma antiga, nas paredes das casas dos comerciantes ricos de Pompeia, mas com uma conotação e dentro de uma cultura totalmente diversa. 

E este "simples" fato não significa que obrigatoriamente tenhamos que copiar e participar daqueles valores. Afinal de contas existiu e talvez ainda o "canibalismo" e nem por isso admitimos em nossa sociedade. Como também existiram e talvez existam sociedades em que o estupro e a relação sexual com "adolescentes" eram normais e faziam parte do debate sobre os calores éticos - Grécia (não quero emitir julgamento sobre vídeos atuais atuais vídeos publicados no Face ou Internet). Fiquemos por aqui, pois o assunto me parece óbvio demais para ficar discutindo sobre isto.

Não faz muito tempo que no Brasil e em outros diversos países existia a escravidão. Por acaso, alguém concorda em reimplantá-la? E este novo sentimento é um valor ético ou apenas uma questão de força? Se a escravidão acabou-se por uma imposição moral burguesa, com suporte em questões econômicas e mercadológicas, pouco interessa nesse momento, ou melhor, interessa aos historiadores e demais pessoas que querem pautar o seu comportamento levando em consideração novos valores morais, mesmo porque não participaram dos anteriores e não possuem os vícios e condicionamentos que marcaram aquela época.  Então aplaudamos o fim da escravatura, criando barreiras para que situações semelhantes não voltem a acontecer com povos mais humildes e economicamente vulneráveis.

Também na Índia o Kama Sutra, com diversas posições de sexo. Mas lá, estas fotos e desenhos não são considerados arte, pois não existe originalidade e o talento se reduz a um belo ou não belo desenho de sexo. 

Ou seja, também neste caso não precisamos de criatividade nem de talento. Qualquer um de nós com um pouco de aprendizado pode fazer um desenho sobre sexo a dois, a três, com penetração e outras práticas. 

Outrossim, se estes desenhos fogem aos padrões usuais com cenas de sexo entre humanos e animais, pessoas do mesmo sexo e crianças, não há nada que possa qualifica-la como obra de arte. Ficam no mesmo nível ou pior no caso da zoofilia. Muitas crianças nas regiões agrícolas, onde o convívio com os animais é próximo praticam esses atos de zoofilia. Mas, qual a necessidade de expô-los?

Diga-se de passagem que há anos filmes e fotos dessas relações sexuais, com animais, com pessoas do sexo posto ou do mesmo sexo, com diversas pessoas participantes (conhecida como suruba) são expostos em lugares reservados, sem exposição pública. 

Por isso a originalidade, o talento e o trabalho inexistem e a obra se resume ao ato de expô-los publicamente.

O mesmo se diga do “artista” que com uma imagem santa, destrói esta imagem, esfregando-a perto dos órgãos genitais, cobertos apenas com um pano, localizado exatamente no órgão.

Não há neste ato, como nos outros, nada de construtivo, mas destrutivo tanto artisticamente, como culturalmente. Para que uma atividade seja elogiada e apreciada como obra de arte,  deveria ter ou tem que apresentar algo construtivo. Como ser arte fosse o ato de destruir.

A nossa cultura é de uma sociedade religiosa, embora muitos possam optar pela falta de religião. E este preceito está previsto na Constituição, assim como no Código Penal, no seu artigo 208, que trata dos “CRIMES CONTRA ATOS RELIGIOSOS”.

“Escarnecer de alguém publicamente, por motivo de crença ou função religiosa; impedir ou perturbar cerimônia ou prática de culto religioso; vilipendiar publicamente ato ou objeto de culto religioso”.

O artista que ter o direito de se expressar, mas todo direito tem limites, e é regulado por lei. Não exista esta total liberdade de expressão, posto que a lei define os seus impedimentos e os modos de expressá-los. Quer se expressar não respeitando os sentimentos religiosos e morais dos outros, invadindo a privacidade do lar e da educação.

Escarnecer significa zombar ou ridicularizar alguém ou alguma coisa (Dicionário online); ironizar, zombar, achincalhar, caçoar, troçar (sinônimos.com.br).

Vilipendiar: destratar ou humilhar, tratar com desdém, menosprezar, ofender através de gestos ou ações. (sinônimos. com.br).

Portanto, deduz-se que todos os religiosos cristãos, assim com a Instituição Igreja Católica e demais crenças cristãs, estão sendo destratados, desrespeitados, achincalhados, zombados, ofendidos.

Sacrilégio significa profanação de lugares, objetos e pessoas que apresentam caráter sagrado ou o ato de desrespeito daquilo que é tido como sagrado (www.significados.com .br).

E profanar é ato de sacrilégio, mau uso das coisas dignas de apreço (Priberam), desrespeitar, ofender, macular.

“verbo que está relacionado com o faltar o respeito a algo religioso ou sagrado. Ao profanar, por conseguinte, desonra-se, ultraja-se uma coisa que, pelas suas características, merece respeito, em “Conceito de profanar”, https://conceito. de >profanar.

Quanto aos problemas culturais. Mostrei diversos exemplos da influência da cultura na arte, de forma construtiva e não destrutiva.

Lembro que ainda persiste em nosso Código Penal o Capítulo VI – DO ULTRAJE AO PUDOR”, cujos artigos 233 e 234 tratam do “Ato obsceno” e  “Escrito ou objeto obsceno”.

Art. 233 – Praticar ato obsceno em lugar público, ou aberto ou exposto ao público:

Sem comentários. Tudo a ver.

Conclusão

Não restam dúvidas que o gostar e a interpretação sobre criatividade e talento têm algo ou muito de "subjetividade". Somos a interação da cultura, dos neurônios e de experiências individuais, sem falar na sinapses, no inconsciente e na genética. 

Parafraseando Eagleman: "a realidade é uma construção do nosso cérebro" (p. 39) e "para ver, não basta ter olhos" (p. 44), comparável ao antigo provérbio "cada um ver o que quer", que traduzido hodiernamente seria "cada um ver o que o seu cérebro permite" Os nossos órgão sensoriais cumprem a missão de enviar informações aos neurônios, transformadas em sinais eletromagnéticos, que são processados pelo cérebro, pela interação de diversos "órgãos" que o compõem. 

Podemos não gostar, uma manifestação particular, porque tal fato nos remete para situações que vivenciamos, ou por qualquer outro motivo (as cores não me agradam), mas o importante é saber separar este não gostar do saber-reconhecer a criatividade e o talento. 

Se a "realidade" não corresponde ao que se vê, acredito que sempre haverá espaço para a arte figurativa, porque podemos retratá-la sob diversas formas e técnicas, conforme se pode constatar pelas diversas formas de representação na história da arte (classicismo, barroco, impressionismo, expressionismo, pop). 

E haverá sempre algo de "misterioso" no ser humano, da sua personalidade, da sua loucura, da sua desrazão e "alma", inseparáveis do seu comportamento, que nos fascina e que poderá ser retratado pelo  artista, de acordo com a sua "realidade".  Também a natureza pode ser retratada com criatividade e talento, como bem nos mostraram Monet e Cezanne. 

O ser humano pode não ser o centro do Universo mas será sempre o centro da cultura, da história e do seu próprio destino. Sem ele não há história nem cultura, ele é o criador. E é isso que o distingue das demais espécies. 

A "morte" temporária da arte figurativa trouxe também consigo, em seu germe, de forma desmedida, a extravagância, a falta de bom senso, a ausência de estética, o "oportunismo" desenfreado. Mas a história da humanidade, à semelhança de um pêndulo, é também a história de estabelecer e romper conceitos, até que os novos padrões sejam estabelecidos e novamente rompidos. 

Não vamos ao radicalismo de também anunciar e querer a morte da arte abstrata, ou de qualquer outra que traga eu seu bojo a criatividade, o talento e o trabalho. Quero sim, a morte dessa arte que nada acrescenta, cujo objetivo é chocar para se firmar e que traz danos irreparáveis à sociedade.  

Outrosssim, é indubitável que estes verdadeiros gênios, acima citados, alguns com contribuições para a ciência, como Da Vinci, possuidores de uma originalidade, criatividade e talento incomuns, muito além dos seres normais, se submeteram a um trabalho exaustivo e árduo para apresentar as suas obras primas, que tanto nos impressiona e nos conquista após séculos ou décadas.

O que ainda não consegui entender e acredito que ninguém se convencerá disto com argumentos plausíveis é como um(a) cidadão(ã) pretende ser portador de uma genialidade tão imensa que precisará apenas apresentar uma ideia qualquer, mirabolante, para ser considerado um artista genial, digno dos maiores elogios e admiração, mais até do que os já citados, sem colocar à prova a sua competência, originalidade e o seu talento, enriquecidos e aprimorados pelo trabalho árduo.

Temos que admitir uma dessas hipótese e fazer uma opção:

1)ou somos uns verdadeiros idiotas e estamos sendo enganados há anos;

2) ou a genialidade destes novos pretendentes é muito superior a de seus antepassados e, por isso, não conseguimos entendê-los;

3) ou, então, são uns verdadeiros charlatões, que se auto-intitulam gênios e que por isso não precisam trabalhar para comprovar as suas supostas genialidades. E estão a nos ludibriar.

Das três hipóteses acredito que ninguém em sã consciência fará uma opção pelas duas primeiras.

Na realidade esses novos protagonistas são tão descarados que circulam com a maior desenvoltura e com uma aura de super-gênios, sem quaisquer constrangimentos e até se ofendem de não serem tratados e admirados como tal. Estão a praticar uma outra arte, a do convencimento e parece que estão sendo bem sucedidos.

O momento atual é de uma crise profunda da arte, dos valores sociais, com um desprezo pelo trabalho, principalmente em relação àquelas pessoas que se dedicam com esforço e zelo a uma atividade profissional, construindo e contribuindo, para no final levarem para casa a recompensa de seus esforços.

Esta arte, para mim e acredito para tantos outros, é a arte daqueles que não têm talento e não querem trabalhar, dos preguiçosos e enganadores, que possuem se utilizam do despudor, que muitos do passado não tiveram, para chocar e agredir a sociedade e a própria arte. São os assassinos da arte.

Pessoas totalmente despreparadas, sem talento e criatividade, que vivem na sombra do que acreditam ser, ludibriando, enganando e tomando os espaços daqueles que querem contribuir e têm os atributos para tal. As suas artes não são  belas nem construtivas, padecem do mal e do vício da preguiça, pois a falta de criatividade e talento não são vícios.

Não estamos interessados em seus nudismos porque também sabemos fazer nos despir, com a diferença de ser nos momentos apropriados, nem em cenas de sexo de mal e mau gosto, porque também sabemos fazer isto e existe uma infinidade de revistas muito mais interessantes e talentosas. São tão desprovidos de qualquer talento que nem mesmo sabem explorar a sensualidade do corpo.

Toda sociedade, por mais elementares, possuem códigos morais, éticos, legais e algumas religiosos que são as ligaduras que lhes dão consistência para existirem como sociedade. Estes códigos mudam, se transformam, por diversos motivos.

Mas para se transformarem não precisam ser vilipendiados, ridicularizados e negativamente agredidos, sob pena desses elos sociais se romperam e ameaçarem a sobrevivência social.

Como tudo na vida existem transformações (com letras minúsculas) e “TRANSFORMAÇÕES”, sendo estas últimas as que dignificam a existência do ser humano.

Não admiro esta “arte” por que:

1)    sei fazer o que eles fazem, se duvidarem, melhor e com mais elegância;

2)    meus códigos não permitem e tenho filhos e netos;

3)    e o mais importante: felizmente tive a oportunidade de ver, aprender, admirar uma “verdadeira” arte, de conteúdo inegavelmente superior, em todos os aspectos, mais bonita, que não me traz repulsa, que encanta aqueles que não só aprenderam, desenvolveram e adquiriram, mas que também nasceram com o senso do ridículo e do bom gosto;

Quero que seja transmitida para as crianças, que ainda não possuem o amadurecimento emocional e intelectual suficientes, uma arte educativa e construtiva, de acordo com os códigos legais, morais e éticos, que respeite a religiosidade das outras pessoas e que não me traga repulsa.

Permitam-me transcrever uma parte do livro “NEURO ECONOMIA”, o Capítulo 6, tópico “cérebros: adolescentes e adultos”, de José Eduardo Carvalho. É interessante e instrutivo:

“Os comportamentos superiores (atitudes), incluindo as funções de aprendizagem e de conhecimento, fazem intervir um nível de organização superior aos instintos e dos afetos – o neocortex. Aqui fazemos nossos juízos de valor sociais, ponderamos opções, planeamos futura e avaliamos nosso comportamento. Segundo Jay Gield, cientista na área de neuroimagiologia, do Instituto Nacional para a Saúde Mental dos EUA, este <<cérebro executivo>> é o último a alcançar a maturidade, não atingindo o nível adulto antes dos 25 anos. Durante a puberdade, temos paixões , desejo sexual, energia e emoções como um adulto, mas o controlo destas emoções só acontece muito mais tarde. Talvez não seja de admirar que os adolescentes careçam de capacidade para ajuizar por si mesmos ou para refrear os impulsos. Nos EUA os jovens voltam aos 18 anos, mas só podem alugar um automóvel aos 25 anos.

[...] O cérebro do adolescente é diferente do cérebro do um adulto. Os adultos usam o córtex-frontal para processar a informação. Um córtex-frontal activo é sinal de maturidade emocional e inteligência. Os adolescentes utilizam uma parte mais antiga do cérebro – a amígdala – para processar  a informação. A amígdala, uma pequena região do sistema límbico, foi uma das primeiras estruturas a desenvolver-se à medida que o cérebro evoluiu. É onde estão as reações instintivas, como a raiva e o medo. Quando estimulada eletricamente os animais respondem com agressão”, p .136.

Ainda sobre o assunto cito David Eagleman, em "O cérebro":

"Para além do desconforto social e da hipersensibilidade emocional o cérebro do adolescente esta configurado para correr riscos. Seja conduzir a alta velocidade ou enviar mensagens com fotos de nus, os comportamentos de risco são mais tentadores para o cérebro do adolescente do que para o cérebro do adulto" (p.23).

Portanto, para estes artistas que tanto gostam de aparecer nu publicamente, incluindo crianças, com um rótulo de arte (não falo em revistas para adultos), ao que tudo possa indicar, trata-se um problema neurológico, talvez reforçado por algum "mecanismo" psíquico, freudiano.

Mas, por mais que venham a ser problemas de ordem neurológicas ou psíquicas, a convivência em sociedade exige regras, leis, sob pena de se romperem os elos sociais. 

Por este motivo, nos países com uma legislação mais evoluída existem normas de proteção à criança e ao adolescente. No Brasil, além do Código Penal, elas estão normatizadas no Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). No seu artigo 1º está dito:

“Esta lei dispõe sobre a proteção integral à criança e ao adolescente”.

Mais especificamente nos seus artigos 240, 241, 241-A, 241-B, 241-C, 241-D, 241-E, estão normas que protegem as crianças e os adolescentes da exposição ao sexo.

No mesmo sentido (de proteção ao menor) normatiza o Código Penal no capítulo “DOS CRIMES SEXUAIS CONTRA VULNERÁVEL”, cujo artigo 217-A reproduzo:

“Ter conjunção carnal ou praticar ato libidinoso com menos de 14 “catorze) anos:

Pena: reclusão, de 8 (oito) a 15 (quinze) anos.

Não pretendo entrar em mais comentários legais sobre este assunto, porque os leitores poderão consultar a legislação, bem como os comentários e as decisões judiciais sobre o assunto. E este não é o objetivo imediato deste artigo.

Ora, vamos discutir o assunto com base em estudos científicos e porque não também com base nos princípios éticos, morais e legais? Afinal de contas crianças e adolescentes estão sob a tutela dos pais, não fazem leis, não ditam normas de comportamento, embora possamos e devamos ouvi-los, para melhor protege-los, ajudá-los nos seus anseios e a desenvolver um espírito cooperativo, base de todas as sociedades, por mais contradições que nela possam existir.

E porque não levarmos em consideração os aspectos religiosos, enquanto eles participam da construção ética, moral e legislativa da sociedade? Onde existem os feriados religiosos, que todos adoram e a Constituição (Carta Magna) garante a “Liberdade de expressão” (manifestação de pensamento) e a “Liberdade de consciência, crença e culto”, previstos nos incisos IV a VIII, do artigo 5º.

VI – “ É inviolável a liberdade de consciência e de crença, sendo assegurado o livro exercício dos cultos religiosas e garantia, no forma da lei, a proteção aos locais de culto e as suas liturgias”.

Citando Rui Barbosa: “Fora da lei não há salvação”. Que se mude a lei, mas não agredindo de forma vã e vulgar os padrões sociais. 

Também por uma questão ética, moral, legal, enfim de “princípios” lógicos, quero para elas (crianças) uma arte que aprendi a admirar, que está acima das minhas capacidades intelectuais em realiza-la e da grande maioria dos mortais.

Uma arte que constrói e dignifica o ser e a existência humana, na qual exista criatividade, originalidade, talento e muito trabalho, que junto dos códigos éticos, morais e legais, são os atributos que diferenciam o “ser humano”.

Uma arte construtiva e não destrutiva, que reforce os elos sociais, mesmo modificando-os quando necessário, que sirva de exemplo, que nos traga orgulho, glorifique e dignifique a existência humana. Uma sociedade não sobrevive sem trabalho, quer gostemos ou não, pois esta é a sina humana.

Então, que este trabalho seja adornado com criatividade e talento, enfim elevado às condições que nos distinguem, para que sejam aliviados os fardos da vida.

Depois de assistir tudo isto, diante dessa essa avassaladora investida anti-artística, que a quase todos choca, não deixa de vir à minha mente o "Poema das sete faces", de Drummond:

"Mundo mundo vasto mundo/ se eu me chamasse Raimundo/ seria uma rima, não seria solução/ Mundo mundo vasto mundo/ mais vasto é o meu coração".

Proposta 

Diante de tanta insensatez, para finalizar vou propor uma arte mais radical, chocante e agressiva.

Vou propor a um museu colocar um vaso sanitário ou pinico no centro e contratar um artista "interativo", para, na medida do possível, fazer suas necessidades fisiológicas a vista do público, inclusive crianças.

Depois as crianças, ou quem quiser, poderão entrar em uma fase interativa com os excrementos do "artista", tocando-os, amassando-os, cheirando-os e quem sabe no final as crianças, depois de sentirem todas essa sensações "tão especiais" para a arte, poderão esfregá-los na cara do artista. 

Afinal os antigos também cagavam e as crianças, na tenra idade gostam de brincar com merda, espalhando-a e compartilhando. Esclareço, desde já, que qualquer proposta semelhante considerarei plágio e entro com uma ação de danos.

Quero ganhar honestamente com este talento que Deus me deu, participando dos ganhos do artista ou do museu, já que a lei me protege e me permite a liberdade de expressão.   



terça-feira, 10 de outubro de 2017

ALGUNS COMENTÁRIOS SOBRE EUGÊNIO FAMA E SUA TEORIA

ALGUNS COMENTÁRIOS SOBRE EUGENE FAMA E SUA TEORIA

( Este artigo foi inicialmente publicado em "Modelos Matemáticos Aplicados à Economia ( porque eles falham"), publicado neste blog. Entretanto, para dar maior visibilidade àqueles que se interessam pelas histórias das questões financeiras, mormente a Bolsa de Valores, resolvi destacá-lo).



Inicio este tópico citando os cabeçalhos dos capítulos 6 e 7 do livro "O Mito dos Mercados Racionais", de Justin Fox, já citado:

Capítulo 6: GENE FAMA FAZ A MELHOR PROPOSIÇÃO PARA A ECONOMIA - " Na década de 1960, na Faculdade de Administração da Universidade de Chicago, o argumento de que é difícil bater o mercado se transforma na convicção de que ele é perfeito".
Capítulo 7: "A lição de que talvez nem valha a pena tentar ganhar do mercado se insere sinuosamente no ramo de investimentos".
Ao que tudo indica, Eugene Fama foi quem melhor expressou este pensamento: "Ele também batia de frente com uma teoria cada vez mais popular no mundo acadêmico, a de que era impossível ganhar consistentemente do mercado. Lançada no final dos anos 1960, por Eugene Fama, professor de finanças da Universidade de Chicago, essa teoria era conhecida como a "hipótese dos mercados eficientes" (HME). No fundo, a HME se baseava na ideia defendida por Bachelier de que os mercados se moviam aleatoriamente e que os preços atuais refletiam todas as informações conhecidas pelo mercado" (em Mentes Brilhantes ......., p. 51).
E quanto a Fama? "Professores assim, e a chance de ter aula de economia com o cada vez mais famoso Friedman, começaram a atrair cada vez mais (e melhores) alunos para a faculdade de administração. O mais significativo entre os primeiros a chegar foi Eugene Fama, um jovem e intenso aluno (o primeiro da família a se formar) da Universidade de Tufts. Fama chegou a Chicago como aluno de MBA, em 1960 - encaminhado para lá por professores que o consideravam intelectual demais para a Faculdade de Administração de Harvard" ( O Mito dos Mercados ....., p. 127).
Infelizmente, confesso que até hoje não consegui entender a sua teoria e identificar a sua utilidade.
A pergunta é: O que significa ganhar consistentemente do mercado? Se não conseguem ganhar consistentemente do mercado também a posição inversa é verdadeira, ou seja "não conseguem perder consistentemente do mercado". O que nos leva a conclusão de que os "mercados são perfeitos". 

Todavia, não está bem claro, pois podemos admitir algumas hipóteses. Num primeiro momento podemos imaginar que isto significa que o investidor perderá tantas vezes quanto ganhará, ou vice-versa. Mas, isto não resolve o problema, pois:
1) o investidor poderá investir sempre a mesma importância inúmeras vezes;
2) o investidor investirá somas diferentes, diversas vezes, indefinidamente, e poderá lucrar com isto ou perder, muito embora possa ganhar e perder o mesmo número de vezes, porque as somas não são sempre iguais;
3) o reverso da medalha é que o investidor não consegue perder consistentemente do mercado.
Este enunciado também traz as seguintes hipóteses:
1) que o investidor financeiro estará sempre presente no mercado, independentemente de quaisquer circunstâncias, não importando que tenha perdido ou ganho inicialmente;
2) a presunção de que o agente econômico vai viver o tempo suficiente para igualar os resultado.
No entanto, não há provas suficientes de que os agentes econômicos se comportem assim e permaneçam sempre no mercado. Os perdedores, em regra, saem em revoada do mercado em momentos de crise e muitos não voltam ou não podem voltar porque os prejuízos foram enormes. E existem aqueles que jamais voltam, se suicidam.
Por seu turno, os vencedores também podem não permanecer no mercado, diante das possibilidades em diversificar as suas oportunidades de investimentos. Outros, simplesmente saem, ou não voltam a aplicar a totalidade das somas auferidas.
Em outras palavras, conforme veremos, eles não permanecem ou voltam obrigatoriamente ao mercado, com o mesmo fôlego, para confirmar a teoria do Sr. Fama.
Em "1929", livro já citado, Ivan Santana nos fornece um quadro bastante interessante do destino e de como os agentes econômicos se portaram após a crise:
"Amadeo Peter Giannini, do Bank of America, John Jakob Raskob, do Empire State Building, Charles E. Merril, da Merril Lynch, e David Sarnoff, da RCA, assim como o já citado Joe Kennedy, foram notáveis exceções naquela época de fracassos" (p. 334). Por incrível que pareça existem as exceções.
Charles Mitchell "tendo renunciado ao cargo de presidente do City Bank em 1933, ele passou a viver de rendas. Morreu em 1955, aos 78 anos" (p.336).
James Riordan (suicidou-se), Ivar Kreuger (suicidou-se em Paris), Jesse Livermore (suicidou-se), Richard Whitney, Michael Meehan, Billy Durant, Irving Fisher e centenas de outros desafortunados mostraram que a armadilha criada pela prosperidade dos Roaring Twenties e pela catástrofe de outubro de 1929 havia mudado, para pior, a história dos Estados Unidos da América e do mundo, afetando a vida de centenas de milhões de pessoas, os herdeiros da sociedade onde todos seriam ricos¨(p.353).
O grande especulador Jesse Livermore, considerado um dos grandes especuladores de sucesso, em sua ascensão e que inspirou o Livro Memórias de um Operador da Bolsa, de Edwin Lefèvre, "vendeu seus imóveis, seu Rolls-Royce amarelo. Tomou dinheiro emprestado a juros e não pagou. Gangsteres a soldo de agiotas o ameaçaram (1929, p.346).
Mirando-se no espelho, o grande Jesse Livermore, o urso de Boston, o maior especulador dos Roaring Twenties, uma figura mítica de Wall Street, sacou uma pistola do bolso do paletó, apontou-a para a testa e atirou. quando caiu no chão já estava morto" (p.346).
"O professor Irving Fisher, da Universidade de Yale, economista que havia garantido que um crash da Bolsa de Nova York era simplesmente impossível, ao menos foi coerente com suas ideias. Perdeu tudo o que tinha, inclusive a própria casa, quando Wall Street quebrou. Fisher teve que morar de favor com sua filha, onde morreu aos 80 anos, em 1947" (p. 340).
"Pedindo empréstimo aqui, oferecendo uma tacada infalível ali, Billy Durant continuou tentando se refazer, cada vez com menos capital. Os amigos agora se recusavam a recebê-lo, não o atendiam ao telefone" (p.339).
"O sogro de Irving Fisher, o católico Clarence Mackay, magnata dos telégrafos, que jamais aprovara o casamento de sua filha Ellin com o músico judeu, também perdera tudo que tinha no colapso de 1929. Só que Mackay, ao contrário do genro, não tinha com o refazer sua fortuna, pois isso dependia de capital e não de talento criativo" (p. 336).
"Julgado por vários crimes, Whitney foi condenado a cumprir pena de cinco a dez anos de prisão na penitenciária de Sing Sing. Jamais voltou ao mundo dos negócios. Morreu em 1974, aos 86 anos, sendo sustentado em seus últimos 33 nos de vida pelos rendimentos de um pecúlio doado por seu irmão ...." (p. 336).
"Homer Dowdy, o carteiro de Flint, foi outro que não conseguiu sacar seu dinheiro no Union Industrial Bank, justamente na época em que mais precisava, devido à doença de sua mulher. Como felizmente tinha um emprego estável, Homer se casou novamente, viveu melhor que a maioria dos americanos nos difíceis anos de 30 e pôde proporcionar uma boa educação aos filhos" (p. 342).
"Após o crash de 1929, o engraxate Pat Bologna, tendo perdido seu precioso 'capital de risco" , voltou a se dedicar exclusivamente ao enfadonho esfrega-e-lustra na banca número 60 de Wall Street. Já não havia tantos clientes, e mesmo esses gatos-pingados davam gorjetas magras, compatíveis com os novos tempos.
Nunca mais Bologna deu conselhos de investimentos, mesmo porque ninguém os solicitou, e ele mesmo evitava falar no assunto para não perder freguês. Nas cinco décadas seguintes Pat continuou por lá, até que um dia pegou suas tralhas, foi embora e não se ouviu falar mais dele" (p.330). A estória de Pat Bologna, um engraxate que aconselhava seus clientes sobre investimentos na Bolsa é bastante conhecida.
Em suma, o investidor não se vale apenas de cálculos matemáticos e probabilísticos aprimorados, mas também da percepção política, econômica, de mudanças sociais e psicológicas de expectativas futuras e apostas, da intuição, até mesmo contrárias às probabilidades. Admitir o contrário seria acreditar e concluir que diversas expectativas e possibilidades de negócios estariam fadadas ao fracasso, simplesmente porque não estavam de acordo com as probabilidades.
Com tanto material à sua disposição para pesquisa, é incrível como o Sr. Fama não conseguiu ver a realidade diante de si e se propôs a teorizar e comprovar uma tese sem qualquer utilidade e importância, vaga, imprecisa, contrária aos fatos.
Ele é a imagem do investidor perdedor. Mesmo com os fatos e as evidências contrárias insistia, tal qual o investidor incorrigível, em comprovar a sua hipótese que em nada contribuiu para esclarecer e elucidar o funcionamento do mercado financeiro e, principalmente, as leis que regem a economia capitalista. Ou seja, não era o investidor racional, de que tanto se fala. Quanta falta de objetividade e desperdício. Ainda bem que foi agraciado com o Prêmio Nobel.
Se o professor Eugene Fama fosse mais cauteloso, mais humilde, menos vaidoso e principalmente mais prático e recorresse às fontes de que dispunha talvez pudesse ter empregado seu tempo de forma mais produtiva, sem desperdiçá-lo com teorias infrutíferas.
Cito passagens do livro Memórias de um Operador da Bolsa, de Edwiun Lefèvre, Elsevier Editora, 2008, considerado um clássico da literatura, que escreveu sobre Wall Street, no início do século XX e que trata, na prática, das operações em bolsa. Os grifos (negritos) são meus.
"A especulação com as ações nunca desaparecerá. Você não pode impedir que as pessoas pensem de modo errado, não importa quanto elas sejam capazes ou experientes. Planos cuidadosamente traçados fracassarão pois o inesperado e mesmo o imponderável ocorrerão. O desastre pode acontecer por uma convulsão da natureza ou do tempo, de sua própria ganância ou do orgulho de alguém; do medo ou da esperança descontrolada (p. 258).
Os inimigos mortais do especulador são: ignorância, ganância, medo e esperança. Acidentes que destruiram planos cuidadosamente elaborados também estão fora do alcance dos regulamentos criados por grupos de economistas de sangue frio ou filantropos de bom coração. Ainda existe outra fonte de prejuízos, ou seja, a informação deliberada apresentada como dicas honestas. E, por ela ser capaz de se aproximar de um operador de marcado com vários disfarces e camuflagens, é a mais traiçoeira e perigosa (p.259).
Mas, contra os rumores típicos de Wall Street, o público especulador não tem nem proteção nem restituição. Atacadistas de ações, manipuladores, grupos e indivíduos adotam vários artifícios para auxiliá-los a se desfazer de suas ações excedentes pelos melhores preços possíveis. A circulação de notícias otimistas por meio de jornais e impressoras de cotações é a mais perniciosa de todas.
Com exceção de todas as análises inteligentes sobre especulação, o operador de mercado deve considerar certos fatos com o jogo de Wall Street (p. 260).
Não pretendo continuar testando a paciência do leitor. Essas simples passagens serviram ao meu propósito. O leitor poderá obter maiores detalhes sobre o que foi dito no livro 1929, de Ivan Santana.
Dando continuidade a este tópico, me permito transcrever uma passagem do livro "1929", citado, de muita praticidade, simplicidade e objetividade, que vai de encontro a todas elucubrações teóricas:
"Muitos defensores do mercado de ações dizem que Irving Berlin mostrou que aplicar dinheiro na Bolsa, por todo o tempo, seja na alta ou na baixa, é um método infalível de se enriquecer. Mas se esquecem de assinalar que para isso é preciso ter outras rendas e viver um século" (grifo meu, p. 353).
E enquanto o Sr. Fama estava debruçado em modelos matemáticos tentando comprovar a sua teoria Buffet e Soros (apenas para citar os mais conhecidos) faziam fortuna no mercado financeiro, sem a menor preocupação com ela.
Um dos problemas mais graves desses modelos é que eles trabalham e são formuladas para o mundo sem impurezas, porque difícil detectá-las.  Assim, não incluem, como não podem incluir, as manipulações dos mercados, o tráfico de influência, as informações privilegiadas e plantadas e a formação de pools, operadas pelos grandes agentes econômicosque interferem nas regras e nas variáveis. 

Diante disto, continuo acreditando que as "informações assimétricas", de que tanto se falam são "histórias da carochina", para criancinhas. Mais importante são as relações de poder, das suas discrepâncias sociais, dos poderes privados e públicos, e das relações "inter" e "entre" eles (do poder financeiro, do político e do saber-poder), personificados por geos, ministros e chefes de Estado, diretores de Bancos Centrais, de Organismos Internacionais (FMI, Banco Mundial) e de cientistas e intelectuais da mídia, que  fundamentam as decisões a níveis "nacionais" e "mundial". E que são as fontes das discrepâncias das informações e decisões. São os "superhubs", que se reunem anualmente em Davo, Suiça, e em outros eventos, de quem nos fala Sandra Navini. 

São também o fundamento da concentração de riquezas, muito embora as leis da economia capitalista, de reprodução, também levem "por si" à concentração e à centralização do capital, como bem já afirmara Marx. Entretanto, não podemos separar as relações de poder das relações econômicas. Elas se inter-ralacionam de uma forma dialética.  

E também partem do pressuposto de que as forças do mercado sempre o levarão para o equilíbrio, sem se darem conta de qual equilíbrio falam. Keynes já nos falava de diversos equilíbrios. Outrossim, esquecem que é nas oscilações do mercado financeiro que se fazem e se perdem grandes fortunas.

Na verdade o Sr. Fama estava trabalhando numa bomba extremamente perigosa que veio explodir em 2007 e custou milhões de empregos e traumas psicológicos em milhões de famílias.

O pior é que não respondem pelos danos causados e ainda são agraciados com o Prêmio Nobel. Quanta irracionalidade!
No artigo "Direito, Economia e Mercados Racionais" afirmei:
"As informações disponíveis não são suficiente para precificar de forma eficiente os ativos, por que existem informações manipuladas, outras falsas, que num primeiro momento não podem ser constatadas. Outrossim, estas informações precisam se concretizar para terem influência sobre os preços. Da mesma forma, o poder dos jogadores ou investidores, como queiram, geram expectativas de ganhos, que nem sempre são racionais. De antemão, não poderia predizer os efeitos de minha decisão sobre os preços, o que gera mais expectativas e indefinições. Expectativas têm alta dose de emoções que, necessariamente, não se baseiam em informações disponíveis. Decisões também se baseiam em expectativas, pressentimentos, desejos, emoções e outros fatores irracionais, como comportamentos de manada em épocas de crise.
A aptidão e o amor pelo risco fogem a racionalidade. Na verdade, pouca interessa se o mercado contém todas as informações disponíveis. Os negociantes, homens de negócio, especuladores ¨apostam¨ no devir, embora sejam ou pareçam ¨racionais¨ nas suas escolhas. E o devir é imponderável e imprevisível e, por isto, as ações ¨racionais¨ não podem levar a conclusões, soluções e consequências sempre satisfatórias, por serem pressupostamente ¨racionais¨".
A estória financeira está repleta de escândalos, que colocam em xeque o mundo perfeito do Sr. Fama e seus colaboradores. Para um aprofundamento da questão sugiro: 1) Stewart, James B., Wall St Covil de ladrões, Ed. ABDR, 2ª edição 1993; 2) Santana, Ivan, 1929, ed. Objetiva, 2014; 3) Santana, Ivan, Mercadores da noite.
E, para quem quiser se aventurar em conhecer as novas falcatruas, pós-crise, do mercado financeiro americano recomendo o livro Flash boys, de Michael Lewis.

Gostaria de finalizar este artigo com uma passagem do livro "Como nasceu a ciência moderna", de Hilton Japiassú, endereçada especialmente aos "RACIONALISTAS" econômicos:

"O desafio da razão é o de tentar explicar tão racionalmente quanto possível a desrazão e o irracional, inseparáveis dos comportamentos humanos" (Ed. Imago, 2007, p.270).  

Por um "irracional" que procurou, por um instante, ser "racional".

Este ano mais um economista da corrente comportamental foi agraciado com o Prêmio Nobel de Economia, provavelmente com o aval e o lobby da Universidade de Chicago,  como sempre ocorreu durante o período de evidência da "teoria dos mercados perfeitos e racionais", capitaneada por Friedman. 

A revista Veja de 18/10/2017 publicou uma reportagem na página 64, sob o chamamento "Um prêmio para as decisões irracionais" (p. 4).

Terminou o artigo com os seguintes comentários:

"O economista Eugene Fama, também de Chicago e ganhador do Nobel de 2013 pela hipótese dos mercados eficientes, deu os parabéns ao colega, mas ressaltou que haverá muita discussão ainda sobre se os agentes econômicos são racionais ou irracionais. Provavelmente, ambos estão certos: são dois lados de uma mesma moeda" (grifos meus). 

Pasmem. Acreditem se quiser. Me parece um irrecuperável, um viciado dos "mercados perfeitos".